Técnico ou distribuidor de coletes?
Técnico ou distribuidor de coletes?

Você já deve ter visto nas mesas redondas, lido em discussões no Twitter e até ouvido nos botecos, análises sobre técnicos de futebol que passam, quase exclusivamente, sobre a qualidade dos elencos que treinam. “Ah, mas com esse time, qualquer um ganharia!”, “Bom, com esses jogadores, não dava para fazer mais nada mesmo…”, são alguns dos argumentos utilizados. Mas, se é assim mesmo, por que os clubes estão pagando tanto para esses profissionais, se basta só alguém para distribuir coletes?

Antes de qualquer coisa, deixo algumas questões para torcedores de todas as camisas: Seu time tem alguma ideia clara de jogo? A equipe muda a forma de atuar de acordo com o adversário? É possível perceber diferentes formas de atacar durante as partidas? A defesa se adapta quando o adversário pressiona? Há jogadores que rendem mais do que o esperado?

As respostas positivas mostram a existência do trabalho de um técnico, que se contar com um bom elenco, poderá ganhar títulos; com um mediano, brigará para ser um ótimo coadjuvante; e se tiver um monte de perna de paus entre os comandados, poderá até escapar passar o ano sem grandes dificuldades. É óbvio que o futebol bem jogado aparece mais fácil com craques, mas um treinador pode ter bons resultados – que não são só títulos, como acham nossos dirigentes – com mão de obra não tão qualificada.

O Flamengo é um exemplo claro do que se pode fazer com qualidade. É bem verdade que Jorge Jesus contou com os ótimos reforços de Rafinha, Pablo Marí, Filipe Luís e Gérson, mas Abel Braga já tinha alguns jogadores acima da média e um elenco qualificado, mas não entregava a superioridade esperada, nem perto disso. Muito do que acontecia dentro das quatro linhas, sob o comando do brasileiro, inclusive, se passava pela falta de ideias, pelo fato de ter se acomodado no futebol reativo.

Olhemos para o Santos, por outro lado. Apesar de Jorge, Sánchez e Soteldo, quantos “professores” fariam um time, que conta com vários jogadores no máximo “bons”, estar no G-4 e ter algumas exibições exuberantes, como na vitória recente sobre o Palmeiras, por exemplo? Muitos integrantes do elenco estão na ou perto da melhor fase da carreira sob o comando do argentino Jorge Sampaoli.

Outro nome que é citado como exemplo do argumento de que, com jogadores mais qualificados, poderá fazer ótimo trabalho é Fernando Diniz. Mas, e o Athletico Paranaense, que voou após sua saída e conquistou a Copa Sul-Americana no ano passado? Em que pese a ideia de jogo que agrada a todos nós, de posse, de ofensividade, é preciso debater a execução, que está longe de ser de excelência. Falta adaptabilidade, falta consistência defensiva e até mesmo falta uma concepção de que ter a bola é parte de um processo para dominar e agredir o adversário, e que não é arma por si só.

É muito importante analisar o trabalho do técnico do futebol com um olhar atento sobre conjuntura, sobre o que é possível e o que não é, sem limitar a discussão aos jogadores que são treinados. Em um cenário de profissionais muito contestáveis, estamos dando a eles uma grande muleta, para que continuem apenas praguejando contra os estrangeiros que aqui chegam, desviando assim o debate sobre o que é mais importante.

LINKEDIN: Bruno Guedes