“Só Deus sabe a pressão que eu segurei para não demitir o Rogério Ceni”, diz Marcos Braz
“Só Deus sabe a pressão que eu segurei para não demitir o Rogério Ceni”, diz Marcos Braz
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Diego Ribas, Marcos Braz e Willian Arão no Flamengo – Foto: Alexandre Vidal

O GLOBO: Diogo Dantas

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Quando o Flamengo montou o time de 2019 e colheu os melhores resultados das últimas décadas, colocou para si mesmo um desafio: manter a hegemonia de conquistas no Brasil e na América do Sul, para alçar voos mais altos e voltar a ser campeão do mundo. O título brasileiro de 2020, primeiro após a pandemia, mantém o sarrafo alto, mas a diretoria sabe que a tarefa é árdua para seguir no topo. As principais metas de 2021 são conservar o bom elenco e segurar o trabalho da comissão técnica diante de um cenário com menos receita e ainda sem público.

— Só Deus sabe a pressão que eu segurei para não demitir o Rogério Ceni — admitiu o vice de futebol Marcos Braz ao GLOBO logo após o terceiro título brasileiro do clube no currículo. — O maior mérito foi manter os principais jogadores — aponta o dirigente, sobre a campanha da conquista de 2020.

Ciente da limitação financeira para investir na próxima temporada, o departamento de futebol trabalha para ser criativo. A principal contratação após a conquista nacional será Rafinha. A diretoria interrompeu as negociações durante a semana do jogo com o São Paulo. Até então, as duas partes já haviam apresentados seus números. A proposta do clube agradou ao jogador, mas o salário exigido pelo atleta foi considerado um pouco alto. Sem custos de aquisição, o veterano de 35 anos deve ceder para que os últimos detalhes sejam ajustados.

— Com o conhecimento de mercado que a gente tem, vamos conseguir reforçar o time, mesmo com essa situação (de orçamento mais enxuto) — disse Marcos Braz, que lembrou mais uma vez que no Brasileiro de 2009 a taça foi erguida até com salário atrasado.

Para que essa realidade não se repita, a ala da diretoria ligada ao departamento financeiro segue de olho nos gastos. A meta orçamentária do Flamengo este ano é ir até pelo menos às semifinais da Libertadores e da Copa do Brasil, além de pelo menos o segundo lugar no Brasileiro. Mas será preciso arrecadar R$ 168 milhões com vendas de jogadores para aumentar os investimentos.

Para continuar no topo, o Flamengo terá que equilibrar seu elenco. Algumas contratações de 2020, como Léo Pereira, Michael e Gustavo Henrique, não vingaram como esperado. Heranças de outros anos, como Vitinho, seguem no elenco por serem caras demais para uma cessão a outro clube com algum lucro. Mas o Brasileiro de 2020 provou que as carências ainda existem.

Dono de um time titular muito forte, o Flamengo sofreu sem um substituto para entrar em cena durante a má fase de Everton Ribeiro. O clube chegou a cogitar a venda do meia para o mundo árabe, mas a diretoria desistiu. Mesmo importantes em diversos jogos, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol não tiveram o brilho de 2019. Se Pedro foi sombra como centroavante, os outros dois não tiveram reposição. Diego Ribas também está em viés de baixa e entrou no time como volante mais por sua experiência do que pelo que poderia agregar no campo.

A opção de volante no clube é João Gomes, que renovou contrato, mas ainda é muito jovem. Nas laterais, o Flamengo tem dois jogadores acima de 30 anos: Isla e Filipe Luís. Mesmo com a possível chegada de Rafinha, só tem como opção Renê, o jovem Ramon pela esquerda e Matheuzinho na direita. A queda do nível nessa posição em 2020 foi uma das mudanças táticas em relação ao que o time apresentou antes.

Na zaga, o clube trouxe Bruno Viana, do Braga, por empréstimo, para formar dupla com Rodrigo Caio. Mas ainda vai analisar se investe para não precisar manter a improvisação de Willian Arão.

Por fim, o gol do Flamengo acabou a temporada sob desconfiança. O veterano Diego Alves se machucou repetidas vezes, e Hugo Souza falhou em momentos decisivos. A diretoria precisa avaliar se investe na posição para trazer um nome mais experiente, uma vez que César teve grave lesão no joelho, e Gabriel Batista é outro jovem que está na fila por uma chance.

Eleição na pauta Além das questões que envolvem o futebol, administradas mais no Ninho do Urubu, o Flamengo vai conviver em 2021 com tensões vindas do que acontece na Gávea. A sede do clube recebe eleição presidencial novamente, em dezembro. O processo deve ser híbrido, com participação presencial e pela internet. O presidente Rodolfo Landim já tem sido pressionado para definir se vai tentar a reeleição ou indicar um sucessor.

Com o título brasileiro, as correntes políticas se movimentam com mais intensidade a partir de agora. O vice-geral Rodrigo Dunshee, por exemplo, é peça importante no xadrez. Filho de um presidente campeão do mundo, seria o sucessor ideal de Landim.

Mas, a ala liderada por Luiz Eduardo Batista, o Bap, vice de relações externas, vê potencial na candidatura de Gustavo Fernandez, vice do Fla-Gávea, como opção a Landim. Do outro lado, o vice de futebol Marcos Braz se vê esvaziado por este grupo mesmo após mais um título.

O dirigente sequer foi convidado para a premiação da CBF do Brasileirão. O executivo Bruno Spindel esteve no evento ao lado de Landim. Com mais uma conquista, Braz já deixou claro que vai caminhar com o presidente. No entanto, se Landim indicar um nome que desestabilize o atual cenário de guerra fria, a percepção interna no clube é que haverá instabilidade. Principalmente no futebol.

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