O futebol sem treino venceu, e muita gente prefere assim
O futebol sem treino venceu, e muita gente prefere assim
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João Gomes e Matheusinho no Flamengo – Foto: Alexandre Vidal

O GLOBO: André Kfouri

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Parece que faz muito mais tempo, porque a consciência coletiva foi envolvida pelo mesmo fenômeno que se apodera dos cérebros que não dormem: a sensação de um eterno presente. Mas foi apenas um ano atrás que Jorge Jesus — lembra dele? Ele certamente sim — exigiu um mês de férias para os jogadores do Flamengo, que tinham levado a temporada de 2019 até os últimos dias de dezembro. Sem querer despertar os jesuítas de sono leve, esta foi uma das contribuições mais importantes do técnico português ao futebol no Brasil, uma condição que, imposta por um clube com o potencial de influência do Flamengo, carregava a esperança de convencer os demais a empunhar a bandeira do treinamento.

De lá para cá, O Vírus passou a dar as cartas e a escolha do futebol por sobreviver da maneira que fosse possível apresentou um jogo que é pior em todos os aspectos, e aqui nem se trata da ausência de público nos estádios. O ano esportivo atropelou o ano do calendário, e a programação do futebol brasileiro em 2021 já começou antes mesmo da disputa do último título de 2020. Jesus, que lida com problemas suficientes no Benfica, mas acompanha de perto tudo o que se passa por aqui, certamente não gostou de saber que os principais jogadores do Flamengo foram premiados com apenas vinte dias de descanso, porque o torneio da Ferj agora tem cota de titulares. Talvez ele queira retirar o que disse sobre o “futebol mais evoluído do mundo”.

Ok, chega de Jesus, ele não está. Mas Hernán Crespo, Ariel Holan, Miguel Ángel Ramírez e Abel Ferreira —em sua primeira “época” completa —, além de todos os treinadores que conhecem o “jeito brasileiro” faz tempo, estão e tentarão construir suas equipes sem qualquer coisa que se possa apelidar de pré-temporada. Eles, e os outros que vierem depois que alguns deles, ou todos, forem demitidos, tentarão administrar expectativas numa temporada em que o número de jogos será superior a qualquer outro lugar. Sem treinar, apenas jogando, recuperando e jogando outra vez. Os visitantes, incluindo Ferreira, também serão apresentados ao menu completo da insensatez, ao verem jogadores convocados para as seleções nacionais se ausentando de partidas importantes.

Essa conversa é antiga e, como toda conversa antiga, chata. Os poderes constituídos do futebol no Brasil riem dela a cada início de ano, fazendo-a soar como fantasia de outsiders que não compreendem o funcionamento das coisas. Até que aparece alguém como Abel Ferreira e passa álcool gel na ferida aberta, enumerando exatamente as mesmas ponderações. Como não é possível desqualificar um técnico deste nível, a resposta vem com crueldades que pretendem torná-lo cúmplice de tudo o que está errado por ter aceitado trabalhar no Brasil, discurso que tem a rubrica do presidente da CBF, Rogério Caboclo. Caboclo parece apreciar o faroeste dos jogos a cada dois dias, do VAR com software vencido, dos cartolas que publicam artigos bizarros, e talvez, até, das tentativas de anulação de partidas.

Se a “CBF do compliance” estivesse mesmo acima de tudo isso, ao menos haveria pré-temporada antes do campeonato que organiza.

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