Maior legado de Jorge Jesus no Brasil foi o fim do “time de índio”
Maior legado de Jorge Jesus no Brasil foi o fim do “time de índio”
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BLOG DO ANDRÉ ROCHA: Em quase todas as entrevistas recentes, Abel Braga fala dos tempos em que comandou o Flamengo, no início de 2019, sugerindo que, se contasse com os mesmos jogadores que Jorge Jesus teve à disposição, teria condições de repetir o sucesso do treinador português ao final da temporada.

Sem dúvida que Rafinha, Pablo Marí, Filipe Luís e Gérson foram um enorme acréscimo ao elenco que havia conquistado o estadual, terminara na liderança de seu grupo na Libertadores e encaminhara a classificação para as quartas da Copa do Brasil com uma vitória sobre o Corinthians, em Itaquera, por 1 a 0.

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Mas há um detalhe no contexto daquele período que Abel convenientemente omite nessa sua narrativa: ele tinha restrições a reunir todos os mais talentosos entre os 11 titulares. A tal ideia do “time de índio”. Imagem utilizada pelo técnico para descrever uma equipe que apenas ataca, sem um mínimo de organização. Desrespeitosa com os povos indígenas, diga-se.

Abel montava o Fla quase sempre com Cuéllar e Willian Arão à frente da defesa, uma linha de meias com Everton Ribeiro, Diego Ribas e Bruno Henrique, Gabigol mais adiantado como a referência no ataque de um 4-2-3-1. Eventualmente abria Gabigol à direita e enfiava Bruno Henrique como centroavante para posicionar Arrascaeta pela esquerda.

Para Abel, Gerson era meia e disputaria posição com Everton Ribeiro e Diego. Com a saída de Cuéllar, muito provavelmente escalaria Piris da Motta como volante. E De Arrascaeta seguiria no banco de reservas.

Jorge Jesus participou como palestrante de um evento sobre gestão esportiva em Portugal. Como a atual passagem pelo Benfica ainda não rendeu um titulo relevante, o vaidoso treinador sempre que pode resgata o período vencedor e, de certa forma, transformador no comando do Flamengo.

Elogiou o talento do jogador brasileiro, mas fez uma ressalva:

– Não conheciam tão bem o jogo sem bola. Que a tática é tão importante quanto a parte técnica. Foi preciso muito trabalho para fazê-los entender. Sem vaidade, isso começou a mudar depois da nossa passagem pelo Brasil.

O tom de “colonizador” de Jesus incomoda desde que esteve por aqui. Hoje ainda gera polêmica e torce os narizes mais “nacionalistas”. É óbvio que o português não reinventou o futebol brasileiro. A seleção de 1970, dentro do contexto da época, já tinha craques trabalhando sem bola, concentrados para fechar espaços.

Havia pressão sobre o adversário com a bola desde o Internacional de Rubens Minelli e Marinho Peres, que havia trabalhado com Rinus Michels e Johan Cruyff no Barcelona. O Corinthians de Tite, nas versões 2011/12 e depois 2015, já era compacto, com jogadores mais próximos em todas as fases do jogo.

O grande legado de Jesus foi sepultar de vez a ideia de que, se reunir os mais qualificados, o sistema defensivo ficará comprometido.

Ou alguém imagina Abel ou outro treinador brasileiro posicionando Arão e Gerson como meio-campistas centrais e reunindo Everton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol como quarteto ofensivo? Rogério Ceni manteve a estrutura e até ousou mais, recuando Arão para a zaga e encaixando Diego no meio-campo. Mas criar essa dinâmica do zero não era tão simples.

Quem marca? Todo mundo, a partir da reação rápida para pressionar o adversário assim que perde a bola. A última linha de defesa recua para proteger sua meta? Não, sobe junto para manter a compactação. Proposta agressiva, de controle pela posse, mas sabendo a hora de acelerar e definir os ataques.

Depois de 2019, ninguém mais discute seriamente a escalação de uma equipe sem volantes de ofício. Função, aliás, que vai perdendo cada vez mais espaço. Tite não abria mão de Ralf no Corinthians. Clodoaldo, em 1970, era o fiel escudeiro de Gerson e Rivellino no meio da seleção de Zagallo.

Arão era um volante de infiltração, quase um meia. Pouco intenso, desconcentrado, que aparecia mais ofensivamente. Virou o grande protetor da última linha, chegou a atuar como zagueiro no último Brasileiro, sob o comando de Rogério Ceni.

O que mudou? O camisa cinco entendeu que defender é um movimento coletivo sincronizado. Não precisa de um especialista em desarmes e interceptações, incansável para cobrir os muitos espaços entre os setores.

Futebol atual. Nada muito revolucionário, até porque Jesus é muito bom, mas faz parte de uma geração anterior de treinadores portugueses. No Brasil encontrou o cenário perfeito para impor seu trabalho: clube com investimento crescente, estrutura, elenco qualificado e disposto a fazer o clube, enfim, ganhar um título relevante.

Ainda lideranças que atuaram na Europa e ajudaram os demais a aceitarem o “choque cultural”. Enfiado goela abaixo e aos berros do técnico que dava um espetáculo histriônico à beira do campo.

Equipe ofensiva, porém organizada. Com resultados que respaldaram o desempenho em alto nível. Campeão da Libertadores e também do Brasileiro, com recorde de pontos no formato com 20 clubes. Fez história.

Abel Braga seguirá com seu discurso que não se fundamenta na realidade. Jorge Jesus continuará lembrando o que realizou por aqui com a “autoestima” de sempre. E ainda falaremos sobre o Flamengo do português por um bom tempo.

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