TERRITÓRIO MLS: Ex-auxiliar de Guardiola, ex-técnico da MLS, quase técnico do Flamengo. É assim que Domènec Torrent está sendo apresentado ao público brasileiro. Porém, o treinador espanhol de 58 anos é bem mais do que apenas rótulos. Entre tantas outras coisas, Torrent conseguiu levar o New York City ao topo mais alta da conferência Leste, algo que seu antecessor, Patrick Viera, não foi capaz de fazer. Na US Open Cup, alcançou também as quartas de final pela primeira vez na história do clube. Terminou a MLS 2019 com o segundo melhor ataque da temporada regular, segunda melhor defesa e segunda melhor campanha geral, atrás apenas do LAFC de Carlos Vela, que derrubou vários recordes no último ano. No geral, em 60 jogos, venceu 29, empatou 15 e perdeu 16 vezes, marcando 104 gols e sofrendo 76.

Apesar do grande ano em números, os títulos não vieram e o time perdeu mais uma vez na semifinal da conferência. Ao fim da temporada, Torrent entrou em acordo com a direção do City, pediu o boné e se mandou, deixando um time arrumado e competitivo para seu sucessor. Dito tudo isso, será que o Flamengo está fazendo a aposta correta ao contratar Domènec Torrent para substituir o mister Jorge Jesus? Veja a opinião dos nossos analistas;

Pedro Breganholi – CEO Território MLS

Acho que, olhando friamente, ele é obviamente uma boa escolha. Tem resultado, é discípulo do Guardiola, adepto do famoso “jogo de posição”… O “Mister” também gostava da bola, mas a questão aqui, na minha opinião, é a personalidade. Você troca um português maluco, no bom sentido, por um espanhol mais sério, reservado. O choque cultural pode ser forte, já que Jesus era a personificação do Flamengo; sangue quente, luta, zoação, descontração… Não caiu nas graças do povo à toa.

Em campo, acho que o Torrent pode dar consistência, mas deve levar tempo, como levou no New York City, onde não venceu nos seus seis primeiros jogos em 2019. Mas não esperem espetáculo e muito menos um novo “Mister”. Quem estiver esperando por isso terá uma decepção do tamanho da torcida do Flamengo. E mais: Quanto tempo vai levar para que alguém da imprensa se desagrade com o estilo mais reservado e comece a queimá-lo? Isso pode ter um peso absurdo na pressão que virá dos torcedores e na paciência dos dirigentes com o trabalho que, claramente, vai precisar de um período de adaptação.

Gustavo Demétrio – Redator/Comentarista Território MLS

Domènec Torrent, em sua passagem de pouco mais de um ano pelo New York City, conseguiu a melhor campanha do clube desde que estreou na MLS em 2015. Porém, no que se refere a qualidade de jogo, equilíbrio entre defesa e ataque e atuações fora e dentro de casa, é possível dizer que o trabalho do técnico catalão regrediu em comparação com o técnico francês e antecessor Patrick Vieira. Em inúmeros momentos, era notório esse desequilíbrio do time de Torrent e, talvez também por isso, a diretoria dos Citizens, que é voltada a um estilo sólido de jogo, preferiu também não tentar fazer com que ele permanecesse.

Júnior Ribeiro – Comentarista Território MLS

Tanto Domenec quanto o Flamengo estarão diante de realidades diferentes. O técnico enfrentará uma pressão nunca antes vista em sua carreira e o time terá um comandante com conceitos muito bem definidos da escola Guardiola. Como visto no New York City, ele não é apegado a esquemas táticos e busca sempre a amplitude no campo de ataque, usando sempre o espaço. Em relação a Jorge Jesus, teremos um time mais horizontal, valorizando a posse. Outro ponto que vai pesar positivamente é a marcação alta, tentando sufocar o adversário.

Porém, isso tudo é na teoria. A prática do futebol brasileiro é resultado, e Torrent chega para suprir a ausência de um técnico que venceu praticamente tudo e que tinha uma presença midiática muito forte, o que o sucessor não tem. Creio que existirá um impacto nos primeiros jogos, muita gente poderá estranhar quando ele optar por 3 zagueiros, ou colocar um jogador em uma função diferente ou até mesmo optar por um Michael em detrimento de um dos chamados titulares apenas pela sua característica de velocidade na ponta. Na MLS o saldo foi positivo, melhor campanha da história do NYCFC, mas o Flamengo é outra realidade e a cobrança será gigantesca.

Pedro Cuenca – Comentarista Território MLS

Domènec tem um estilo de posse de bola e o NYC tinha muito a característica de toques rápidos, desde a defesa até o ataque. Essa foi a forma encontrada para suprir a ausência do David Villa e isso impulsionou a carreira, por exemplo, do Maxi Morález. Mas mesmo com essa característica forte de posse de bola e passa, fora de casa o time sofria muito, se acovardava e recuava, e isso pesou no trabalho dele. Sair atrás do placar também era um problema, o time não conseguia furar linhas de defesa. Ele conseguiu fazer muitos jogadores jovens brilharem, lançou muita gente, e fez jogadores não tão conhecidos aparecerem, com o brasileiro Héber. Torrent tem um bom projeto, uma característica forte, parecida com a do Jesus, mas vai precisar se adequar ao futebol brasileiro. É legal ele ser auxiliar do Guardiola, mas ele vai precisar de muito mais do que isso.

O jornalista Fernando Campos, comentarista do DAZN, também analisou o o estilo de jogo do treinador:

Domènec Torrent é um discípulo de Guardiola e um adepto do jogo de posição também. A imposição com bola está presente, mas o estilo é um pouco diferente de Jorge Jesus. Valoriza o controle pela posse, mas os jogadores se distribuem em posições mais definidas. Os jogadores do Fla tinham mais liberdade para circular com o Mister. Era um time com posse, mas que girava mais e que tinha um estilo vertical. Acho que essa pode ser a mudança mais sensível se o acerto com Torrent acontecer..

O treinador chega com uma ideia definida e é natural que tenha um trabalho autoral. Vai tentar ser protagonista de maneira diferente e que pode render frutos também. Desenvolvimento de jogadores e etc. Torrent preza pela saída de bola com toques curtos e até com o auxílio do goleiro gerando jogo. A fase inicial de construção é mt importante para o desenvolvimento das suas equipes. Sai jogando de pé em pé e tenta envolver com a posse paciente até encontrar uma lacuna pra atacar. Adota a amplitude nos seus times. Com bola os laterais e pontas ficam bem abertos. Amassam as linhas rivais e espaçam a defesa adversária. A ideia é sempre gerar superioridade e abrir um lacuna para romper a marcação adversária. Pode ser uma mudança para Filipe Luís e Rafinha. Intensidade sempre lá no alto. Marcação pressão para retomar o controle da posse e para gerar o erro do rival. Quando retoma a bola tenta definir a jogada de uma maneira muito rápida. Principalmente quando sobe as linhas para amassar a saída de bola adversária. Cerca e pressiona.

A ideia de gerar superioridade também está presente no momento da definição das jogadas. Sua ideia é que a sua equipe sempre ataque com muitos jogadores. É normal que um bloco esteja presente na grande área adversária na hora do ataque. Muita gente pra definir a jogada.

É natural que alguns mecanismos mudem e qualquer reposição é delicada. São ideias um pouco diferentes, mas alguns conceitos iguais estão presentes. É importante não pensar em um espelho de Jorge Jesus, mas dá pra esperar um Flamengo protagonista e ainda muito forte com Torrent.